...vim pra casa só pensando em ligar pra Ela, coisa que efetivamente fiz. Falamos por mais de uma hora sobre um monte de coisas. A princípio, me pareceu confortante poder ser amigo dela e aproveitar sua receptividade e companhia, na iminência presente de me ater mais fortemente a ela, mas depois pensei na complexidade da formação dos sentimentos femininos e me inquietou a possibilidade de esperar mais do que a minha carência pode sofrer. Instabilidades!
Esse era mais um sábado em que eu não a via, mais um sábado de lamentar minha saudade e nossa distância, mais um sábado em que a única via possível de contato, além dos pensamentos que mantinham minha mente ligada a Ela, era o telefone. Vali-me, outra vez, desse recurso.
O antagonismo que descrevi nas linhas da agenda constituía, para mim, uma questão angustiante, ao mesmo tempo favorável e, talvez por esse favorecimento, tolhedora. A parte favorável equivalia à maravilhosa oportunidade - a bênção, em termos mais exatos - de fazer parte de sua vida e de tê-la como uma pessoa próxima a mim, com quem compartilhava minha vida e cuja presença era das mais agradáveis que tinha e ainda tenho, quizá a mais desejada. Para mim, fazer parte de sua vida já era uma conquista, e o fato de que até então ela nunca me havia rejeitado ou desdenhado de minha companhia era o feliz presságio de que, ao menos, seríamos muito bons amigos...
...mas minhas intenções em relação a ela me levavam a desejá-la como mais que uma amiga, também uma amiga - como, de fato, ela o é para mim -, mas mais do que isso. Queria-a como uma mulher, como uma compartilhadora de sonhos e como uma companheira para toda a minha vida. No entanto, pensava eu que, sendo boa nossa amizade, esses sentimentos demorariam mais a gerar-se no coração dela, talvez por ela não querer perder em mim um amigo, talvez pela consolidação irreversível de uma amizade que, de tão verdadeira e justa, não conseguiria ver-se mais como outro sentimento.
Ao final, como um protesto, a caneta marcou, na página branca da agenda, a tormentosa palavra Instabilidades! Minha alegria e meu feliz fado - não sabendo-o eu - era que esse tormento interior estava prestes a acabar.
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